terça-feira, 17 de abril de 2018

RESENHA: Encarcerados

Encarcerados John Scalzi
Desde que li Guerra do Velho, me tornei fã incondicional de John Scalzi e estava extremamente curioso para conferir Encarcerados, uma promissora mescla de ficção científica e policial. 

A Síndrome de Haden matou mais de 400 milhões de pessoas e os sobreviventes precisaram lidar com uma terrível sequela: o encarceramento, ou seja, suas mentes saudáveis ficaram presas em corpos incapazes de se movimentar. A situação é contornada pela tecnologia, que permite que os hadens transfiram suas consciências para corpos robóticos e assim possam viver em sociedade. É neste contexto que conhecemos o haden Cris Shane que, em seu primeiro dia de trabalho no FBI, começa a investigar o assassinato de um homem em um quarto de hotel em Washington.

Como esperado de Scalzi, a narrativa é extremamente fluída e envolvente. Em poucas páginas o leitor já está completamente fascinado por este novo mundo e suas infinitas possibilidades. Aliás, é impossível não se impressionar com a originalidade do pano de fundo criado pelo autor. 

Outros dois aspectos também se destacaram. O primeiro deles é o bom humor presente na narrativa, que em diversos momentos me fez rir alto. O segundo é a quantidade de reflexões que a estória provoca, tais como identidade, evolução e os limites entre a moral e a tecnologia.

"— Estamos trabalhando em pesquisas para desencarcerar os acometidos pela Haden. [...]. Para libertar os corpos e trazê-los de volta ...
— Trazer-nos de volta de quê, exatamente? — questionou Hubbard. — De uma comunidade de 5 milhões de pessoas nos Estados Unidos e 40 milhões em todo o mundo? De uma cultura emergente que interage com o mundo físico, mas é independente dele, com preocupações, interesses e economia próprios? Você tem ciência de que um grande número de haddens não tem lembrança nenhuma do mundo físico?"(SCALZI, 2018, p. 96)

O protagonista é extremamente cativante, sendo um excelente condutor da estória. É através de seu olhar que entendemos o funcionamento deste universo, bem como acompanhamos a evolução da investigação policial e seus desdobramentos. 

A estória de Scalzi é um típico “whodunit”, ou seja, o livro gira em torno de descobrir quem é o responsável pelo assassinato. Apesar da identidade do assassino não ter me surpreendido, fiquei impressionado com a forma como a trama foi construída e amarrada. Além disso, saliento que o autor preferiu manter a verossimilhança do que forçar reviravoltas na estória apenas para surpreender o leitor. 

Encerro afirmando que John Scalzi partiu de um conceito interessantíssimo, mas também acertou em cheio no desenvolvimento da estória. Encarcerados é uma mistura bem sucedida de ficção científica e policial, que me prendeu do início ao fim e que provou que Scalzi é um dos autores mais criativos e originais da atualidade.  

Após encerrada a leitura, obviamente fiquei com um gostinho de quero mais e para minha alegria descobri que há uma continuação (Head On, lançado este mês nos Estados Unidos). Mas fique tranquilo, pois a estória de Encarcerados tem início, meio e fim, não ficando ganchos para o segundo livro. Na verdade, creio que as estórias dos livros serão independentes entre si, apenas dividindo o mesmo contexto e protagonista. 

Título: Encarcerados
Autor: John Scalzi
N.º de páginas: 326
Editora: Aleph
Exemplar cedido pela editora

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sexta-feira, 13 de abril de 2018

[Dramas Familiares] para quem não gosta de [dramas familiares]

Todo leitor se identifica com alguns gêneros literários mais do que com outros. Mas existem alguns livros que são capazes de abrir os olhos dos leitores para gêneros dos quais ele nunca gostou, justamente por mostrarem uma faceta diferente do gênero, por terem algo a mais. Livros que fazem o leitor que diz “Não gosto deste tipo de livro” se apaixonar justamente por um livro deste tipo.

Foi pensando nisso que o Além da Contracapa criou uma nova coluna: “[...] para quem não gosta de [...]”, na qual faremos uma seleção de livros de um determinado gênero ou temática que podem agradar até mesmo quem costuma fugir deles. 

Nem todo leitor gosta dos conflitos dos dramas familiares. Mas há livros do gênero que usam do núcleo familiar como estopim para situações que misturam muitos outros elementos. É pensando nisso que elegemos três livros que irão agradar mesmo aqueles que não gostam do gênero.

Em uma festa de colégio que reúne os pais das crianças, uma pessoa morre. O leitor não sabe se foi acidente ou assassinato, mas, acompanhando a história desde os seis meses anteriores, logo percebe que as duas hipóteses são válidas, que os candidatos à misteriosa vítima são muitos e que são inúmeros os gatilhos que podem disparar para que a tragédia aconteça. Sim, os acontecimentos giram em torno dos dramas de três mulheres e suas famílias e abordam temas sérios como bullying e abuso sexual, mas enquanto os dramas se desenrolam o leitor é guiado pelo mistério “Quem morreu? Quem matou?” ao melhor estilo das histórias policiais. 

A trama é pesada: cinco irmãs (a mais nova com 13, a mais velha com 17 anos) cometem suicídio no período de um ano. A história gira em torno da família Lisbon e de como cada suicídio repercute sobre os pais e sobre cada uma das meninas. Quem nos conta a história é um grupo de meninos que, na época das mortes, era apaixonado pelas meninas. Agora, anos depois, eles relembram os acontecimentos com um olhar melancólico, fascinado e distante próprio de homens adultos. Por isso, o verdadeiro ponto de destaque de “As Virgens Suicidas” é a sensibilidade com que a história é narrada, sendo delicada e bela, apesar de tão trágica. Um livro único, do tipo que emociona e marca o leitor para o resto da vida. Um dos meus favoritos de todos os tempos.

Uma família marcada por um misterioso Drama (assim mesmo, com D maiúsculo). Essa é basicamente a premissa de “O Livro dos Baltimore” (minha melhor leitura de 2017) que conta a história dos Goldman, em especial de três primos, e do trágico acontecimento que mudou os rumos da vida de todos. Sim, temos muitos dramas familiares, mas também temos muito mistério neste quebra-cabeças que abrange décadas de história mesclando gêneros de tal forma que é difícil saber onde termina um e onde começa o outro.



segunda-feira, 9 de abril de 2018

RESENHA: As Oito Montanhas

Em As Oito Montanhas conhecemos Pietro, um jovem que, durante os verões, parte para a pequena cidade de Grana com sua família. Lá ele conhece Bruno e os garotos passam a desbravar a região junto, se aventurando pelas montanhas. Durante os verões, eles também acompanham o pai de Pietro em trilhas pelos Alpes italianos. 

Acompanhamos os personagens por um período de trinta anos, vendo como a vida deles se cruzaram em momentos cruciais. Pietro ocupa a posição de protagonista e narrador, de modo que o leitor vê de perto seu amadurecimento e evolução. Entretanto, preciso admitir que os personagens não me cativaram. Atribuo isto, pelo menos em parte, ao fato de que o leitor não os conhece de verdade, mas apenas a versão de suas vidas na montanha. 

Também preciso destacar é que a narrativa de Cognetti não me envolveu. Sou da opinião que quando se trata de descrições, a regra de ouro é "menos é mais". E algo que me incomodou durante todas a leitura de As Outo Montanhas foram os incontáveis parágrafos que contavam com descrições, e não apenas sobre o cenário, mas até mesmo de informações irrelevantes para o desenvolvimento da estória, como a produção de queijos ou a construção de uma casa. Por isso, achei a leitura monótona em diversos momentos. 

"No segundo dia de caminhada apareceram, no fundo do vale, os picos do Himalaia. Então, vi as montanhas como haviam sido no alvorecer do mundo. Montanhas pontudas, afiadas, como se tivessem acabado de ser esculpidas pela criação, ainda não polidas pelo tempo. A neve iluminava o vale do alto dos seus seis ou sete mil metros. As cascatas precipitavam das saliências e incidiam nas paredes rochosas; terra vermelha descolava-se das encostas e acabava fervilhando no rio. No alto, indiferentes àquele tumulto, as geleiras vigiavam tudo". (COGNETTI, 2017, p. 184)

Creio que a intenção do autor era discutir temas como amizade, relações familiares e os conflitos de geração. Porém, fiquei com a sensação de que tais assuntos eram maiores do que a própria estória que Cogneti tinha para contar. A meu ver, nenhum livro é bem sucedido se as lições de vida importam mais do que a estória em si. 

Outro problema — o qual afetou diretamente o impacto das reflexões propostas pelo autor — é que não “comprei” a amizade dos personagens: pessoas que tem poucas coisas em comum e que se encontravam esporadicamente. Minha impressão foi de que a amizade deles foi descrita com entusiasmo demais considerando os eventos retratados. 

Quando encerrei a leitura, fechei o livro e fiquei me perguntando qual era o objetivo do autor. Os personagens são blasé; os conflitos são mundanos; as reflexões não impactam e a estória parece vazia. Apesar do livro ter sido premiado na Itália, o livro não me agradou e me pareceu claro tratar-se de um livro de estréia. 

Título: As Oito Montanhas
Autor: Paolo Cognetti
N.º de páginas: 253
Editora: Intrínseca
Exemplar cedido pela editora

sexta-feira, 6 de abril de 2018

RESENHA: O Homem de Giz

Misteriosos sinais e um grupo de amigos que encontra um corpo em uma cidade pequena. A premissa é “stephenkingiana” demais para não me atrair e fez isso ainda no final do ano passado quando descobri que a Editora Intrínseca havia adquirido os direitos de publicação de "O Homem de Giz", livro de estreia de C.J. Tudor.

Em 1986, Eddie e seus amigos têm apenas 12 anos. Para dar mais emoção aos seus dias, passados entre a escola e pequenas aventuras, a gangue formada por Mickey, Nicky, Gav, Hoppo e Eddie encontra um jeito de se comunicar secretamente através de desenhos de homens de giz. Um dia, um recado misterioso usando o código do grupo os leva até o bosque onde encontram o corpo desmembrado de uma menina da cidade. Está tudo lá. Menos a cabeça. 30 anos depois, os amigos recebem novamente os desenhos de homens de giz, mas antes que possam saber quem os deixou, um deles é encontrado morto.

Intercalando o ano de 1986 com o de 2016, através da narrativa em primeira pessoa de Eddie, Tudor nos conduz pelos eventos que marcaram a infância do grupo, nos deixando conhecer também os adultos que se tornaram.

De maneira bastante orgânica, a autora insere diversos conflitos e personagens, de modo que não sabemos quais deles serão essenciais para desvendarmos o mistério. Tudo o que sabemos é que se Eddie escolhe falar sobre esses episódios, tantos anos depois, é porque alguma importância eles têm. Assim, o trágico acidente com a menina no parque de diversões, o misterioso Sr. Holloran (homenagem a “O Iluminado” já que a autora é uma fã de King?), a morte do irmão mais velho valentão de Mickey e o afastamento dele do grupo, Nicky e seus acidentes domésticos, os protestos comandados pelo reverendo (pai de Nicky) contra o trabalho da mãe de Eddie e sua clínica de aborto, a morte do cachorro de Hoppo, são todos eventos de 1986 que se somam aos intrigantes homens de giz que reaparecem em 2016, assim como a volta de Mickey à cidade e a relação de Eddie com sua inquilina, Chloe. Nesse vai e vem, “O Homem de Giz” se mostra aquele tipo de livro envolvente que se você não precisar interromper a leitura, você não interrompe.

“Minha vida foi definida pelas coisas que não fiz, pelas coisas que não disse. Acho que o mesmo acontece com várias pessoas. Nem sempre o que nos molda são as nossas realizações, e sim as nossas omissões. Não necessariamente as mentiras, apenas as verdades que não dizemos.” (TUDOR, 2017, p.138)

O próprio Eddie diz em um dado momento que aos doze anos os seus amigos são o seu mundo, então esse é outro aspecto positivo de acompanharmos os eventos com 30 anos de intervalo. Apesar de nos contar como se tudo estivesse acontecendo naquele momento, Eddie já tem um certo distanciamento dos eventos e dos próprios amigos o que lhe permite enxergar as coisas com maior amplitude.

No final, todas as pontas se amarram e é preciso reconhecer certa audácia da autora em alguns aspectos. Ainda assim, não sei exatamente porque, fiquei querendo algo a mais. Quando terminei a leitura, senti que se tratava daquele tipo de livro que logo cairia no esquecimento, embora durante a leitura eu estivesse 100% envolvida, querendo sempre ler mais um capítulo.

O Homem de Giz” não é aquele suspense que vai marcar a sua vida, mas você vai curtir cada segundo.

Título: O Homem de Giz
Autora: C.J. Tudor
N° de páginas: 269
Editora: Intrínseca
Exemplar cedido pela editora

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quarta-feira, 4 de abril de 2018

O que vem por aí - abril

terça-feira, 3 de abril de 2018

Top Comentarista de Abril



No Top Comentarista de abril, o vencedor poderá escolher o livro que quer ganhar dentre as quatro opções: "Robôpocalipse", "Quando tudo faz sentido", "A Filha Perdida" e "Indignação". 

Confira o regulamento:

1. Para participar, basta preencher o formulário abaixo, usando sua conta do Facebook ou seu e-mail. É obrigatório curtir a página do blog no Facebookcomentar em todas as postagens de abril e ter um endereço de entrega no Brasil.

2. Para simplificar, optamos por utilizar o Rafflecopter. A primeira entrada confirma sua participação no Top Comentarista, enquanto as demais constituem chances extras, sendo opcionais. Atenção: depois de feito o sorteio será conferido se o sorteado comentou em todas as postagens do mês. Caso essa regra não seja cumprida, o mesmo será desclassificado, e um novo sorteio será realizado.

3. Para a entrada "Tweet about the Giveaway" ser válida, é obrigatório seguir o blog no twitter. 

4. Lembrando que somente serão válidos comentários significativos. Ou seja, comentários do gênero “interessante”, “legal” ou “ótima resenha” não serão computados. O participante poderá comentar apenas uma vez em cada post.

5. O sorteado poderá escolher o livro que deseja receber dentre as quatro opções disponíveis:
- Robôpocalipse;
- Quando tudo faz sentido;
- A Filha Perdida;
- Indignação.

6. O resultado do Top Comentarista será divulgado no blog até o dia 05 de maio.

7. O sorteado será contatado por email, tendo o prazo de 48h para fornecer seus dados e o blog se responsabiliza por confirmar o recebimento das informações. Decorrido o prazo sem manifestação do vencedor, novo sorteio será realizado.

8. O prêmio será enviado pelo blog no prazo de trinta dias úteis.

9. A Equipe do Além da Contracapa se reserva ao direito de dirimir questões não previstas neste regulamento.

a Rafflecopter giveaway

sábado, 31 de março de 2018

RESENHA: Mago e Vidro

Mago e Vidro Torre Negra Stephen King
Após a empolgante leitura de As Terras Devastadas, terceiro livro da série, estava com a expectativa em alta para conferir Mago e Vidro e continuar desbravando o caminho rumo a Torre Negra ao lado de Roland, Eddie, Susannah e Jake. Mas, para minha surpresa, o quarto volume da série tomou um caminho inesperado. 

Em Mago e Vidro conhecemos mais a fundo a estória de Roland, descobrindo o que aconteceu com ele após seu precoce teste de maturidade. O pai de Roland, preocupado com sua segurança, envia o filho e seus amigos para uma missão na cidade de Hambry. Entretanto, ao chegarem lá, os adolescentes descobrem uma terrível conspiração que os obriga a tomarem medidas drásticas. Para complicar a situação, Roland se apaixona por Susan Delgado, uma jovem prometida ao prefeito. 

O quarto livro da série demorou para prender minha atenção. As primeiras páginas colocam um fim bastante óbvio ao cliffhanger do livro anterior e, logo em seguida, Roland começa a compartilhar suas memórias. O problema é que, a exceção de Roland, tudo muda: temos novos personagens, um novo cenário e um novo contexto. Ou seja, tive a impressão que estava começando a leitura de um novo livro. 

Confesso que, em um primeiro momento, fiquei um pouco frustrado ao perceber que a obra se dedicaria a destrinchar o passado de Roland, afinal, estava mais interessado na jornada dos personagens rumo a torre. Entretanto, logo entendi a opção de King: somos levados ao passado para entender de onde surgiu a obsessão de Roland pela Torre Negra e vemos os inúmeros sacrifícios que ele fez para seguir em seu caminho. Além disso, o autor também aproveita este momento para fornecer diversas explicações sobre o mundo de Roland.

“Os que estão sob o domínio de uma droga forte — heroína, erva-do-diabo, verdadeiro amor — frequentemente se veem tentando manter um precário equilíbrio entre discrição e êxtase, enquanto avançam na corda bamba de suas vidas. Manter o equilíbrio numa corda bamba é difícil até mesmo no estado mais sóbrio, fazer isso num estado de delírio é praticamente impossível. A longo prazo, é completamente impossível.” (KING, 2007, p. 425)

Apesar de entender a opção do autor, preciso salientar que achei o desenvolvimento da estória muito vagaroso. Das oitocentas páginas do livro, mais de seiscentas são dedicadas a estória de Roland e a minha impressão é que pelo menos um terço poderia ter sido cortado. Assim, considerando que a estória começa praticamente do zero e que tem um ritmo lento, acabei demorando para me sentir envolvido. 

Mas quando King alcança o ápice da estória e começa a amarrar todas as pontas da trama é impossível interromper a leitura. É por isso que tenho uma confiança cega no autor: King sempre sabe o que está fazendo e sempre consegue surpreender o leitor, mesmo que as vezes demore um pouco para entregar este resultado. 

Apesar da jornada rumo a Torre Negra ter avançado pouco, Mago e Vidro é um livro necessário para entendermos a complexidade do protagonista e a origem de tudo. Registro que a estória de Roland ainda está incompleta e imagino que nos próximos livros receberemos mais algumas peças do quebra-cabeça, mas depois deste volume temos uma visão muito mais abrangente de sua estória. 

Como sempre, King me deixou com muita vontade de partir para a leitura do próximo volume assim que virei a última página. Desta vez, o final não contou com cliffhangers e admito não ter a menor ideia de qual rumo a estória irá seguir. 

Título: Mago e Vidro – A Torre Negra vol. IV
Autor: Stephen King
N.º de páginas: 813
Editora: Suma

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