quarta-feira, 22 de novembro de 2017

[Nonsense] para quem não gosta de [Nonsense]

Todo leitor se identifica com alguns gêneros literários mais do que com outros. Mas existem alguns livros que são capazes de abrir os olhos dos leitores para gêneros dos quais ele nunca gostou, justamente por mostrarem uma faceta diferente do gênero, por terem algo a mais. Livros que fazem o leitor que diz “Não gosto deste tipo de livro” se apaixonar justamente por um livro deste tipo.

Foi pensando nisso que o Além da Contracapa criou uma nova coluna: “[...] para quem não gosta de [...]”, na qual faremos uma seleção de livros de um determinado gênero ou temática que podem agradar até mesmo quem costuma fugir deles. 

Que há muitos autores que abandonam a lógica enquanto escrevem, isso ninguém dúvida. Aqui no Além da Contracapa já cansamos de esbarrar em livros que parecem nem ao menos lembrar que verossimilhança existe. Porém, há algumas obras que, por mais nonsense que sejam, ainda fazem sentido.

Então, vem conferir os três livros nonsense que acabaram sendo excelentes leituras.

Por Trás de Seus OlhosPor Trás de Seus Olhos

Por trás de seus olhos é um livro intenso e hipnótico. Parece um triângulo amoroso (e é), mas está longe de ser o que normalmente associamos a isso. É um thriller psicológico com o melhor que o gênero tem a oferecer. A cada página podemos sentir o perigo dos jogos mentais e manipulações e é totalmente impossível entender (quem dirá prever) o comportamento dos personagens. Não bastasse isso, nas últimas páginas descobrimos que a trama é totalmente bizarra e desprovida de lógica. Ainda assim, o livro funciona mesmo para aqueles que prezam pela verossimilhança, porque a autora consegue fazer com que a verdade dos personagens se sobressaia. Faz sentido que aquilo aconteça? Não. Mas faz sentido que aqueles personagens se comportem assim, por isso o leitor fecha o livro satisfeito (e embasbacado).
A Metamorfose é um dos grandes clássicos da literatura mundial. Você pode nunca ter lido Kafka, mas certamente já ouviu falar de Gregor Samsa, o homem que acordou um belo dia transformado em um inseto gigante. Faz algum sentido? Nenhum! Mas isso é apenas um detalhe, já que os motivos da transformação física do personagem pouco importam. Na verdade, A Metamorfose é uma grande metáfora (e pode ser lido milhares de vezes, sempre proporcionando novas experiências) que transforma o absurdo em normal e o normal em absurdo. Pode ser uma história sobre preconceito, sobre isolamento, sobre como as pessoas se aproveitam umas das outras…pode ser milhares de coisas, dependendo da perspectiva com a qual o leitor a analisa. Um nonsense que faz muito (e muitos!) sentido e que agradará em cheio os que gostam de histórias reflexivas.

A Extraordinária Viagem do Faquir que Ficou Preso em um Armário IkeaA Extraordinária Viagem do Faquir que Ficou Preso em um Armário Ikea

Ajatashatru é um faquir fajuto que convenceu sua aldeia a pagar por uma passagem para Paris, onde ele poderia comprar uma cama de pregos na famosa loja de móveis Ikea. Mas o que ele não esperava era ficar preso dentro de um armário e ser enviado para outro país. E se você já achou isto improvável, informo que o personagem acaba visitando outros cinco países, sempre utilizando meios de transporte inusitados. Mas apesar de beirar o absurdo, o autor certamente atingiu seu objetivo: escrever um livro que arranca gargalhadas do leitor por causa das situações inesperadas e da narrativa irônica e espirituosa. Como se não bastasse, a temática da imigração ilegal também é abordada, levando o leitor a refletir sobre essa dura realidade. No fim das contas, mesmo que a estória seja nonsense, vale a pena acompanhar as aventuras inimagináveis do faquir, especialmente se você estiver procurando por uma leitura leve e descontraída.


segunda-feira, 20 de novembro de 2017

RESENHA: Assassinato no Expresso Oriente

Assassinato no Expresso Oriente / Agatha Christie / Hercule Poirot
Hercule Poirot planejava tirar uns dias de férias quando recebe um chamado para voltar com urgência a Londres. O detetive embarca às pressas no Expresso Oriente, mas sua viagem é interrompida devido a uma nevasca que impede a passagem do trem. No dia seguinte, um dos seus colegas de viagem é encontrado morto, apunhalado 12 vezes.

Um caso do sempre ótimo Hercule Poirot, “Assassinato no Expresso Oriente” é um dos livros mais famosos da extensa (e recheada de grandes sucessos) obra de Agatha Christie. Isso se deve ao desfecho, absolutamente inusitado, considerado um dos mais surpreendentes propostos pela autora. E não é para menos. Ao criar a trama desse livro, Agatha deve ter pensado: “O que eu ainda não fiz? Já sei! Um caso em que o assassino…..”. Até Raymond Chandler disse (embora seu comentário passe bem longe de parecer um elogio) que nenhum leitor em sã consciência desvendaria o mistério porque a resposta não passaria pela cabeça de ninguém.

A trama se divide em três partes: na primeira, conhecemos rapidamente os personagens e os vemos em situações que antecedem o crime; na segunda, Poirot conduz os interrogatórios; e na terceira, é chegado o momento em que o detetive, tendo em mãos todas as informações, coloca suas células cinzentas para trabalhar e encontrar a resposta.

Ninguém desenvolve a premissa “um grupo de pessoas confinadas em um mesmo lugar, todas sendo suspeitas de um crime” melhor do que Agatha Christie. Nesse caso, todos estão presos no trem e Poirot não pode ao menos confirmar as informações que recebe, tendo que confiar estritamente no seu discernimento e na palavra daqueles desconhecidos.

“O impossível não pode ter acontecido, assim sendo o impossível deve ser possível apesar das aparências." (CHRISTIE, p. 213 – edição britânica) Tradução livre

Por contar com um elenco grande de personagens, o ritmo acaba se tornando um pouco mais lento já que boa parte do desenvolvimento da história consiste nas entrevistas que o detetive faz (o passageiro chega, é entrevistado, o passageiro sai, entra outro e assim por diante), mas Agatha consegue manter o interesse do leitor.

Além do desfecho, outra coisa inusitada em “O Assassinato no Expresso Oriente” é a posição que Poirot se encontra ao desvendar o crime. Pela primeira vez o detetive se pergunta o que fazer diante da verdade e se deve, ou não, deixar que o criminoso fique impune. A decisão, de um jeito ou de outro, lhe parecerá errada.

Eu já havia lido “O Assassinato no Expresso Oriente” há muitos anos e dessa vez aproveitei a oportunidade para reler em inglês. Foi a primeira vez que li um texto de Agatha Christie no original e embora ler em outro idioma seja sempre um processo mais lento, ainda é possível encontrar nele a fluidez que costumamos encontrar no texto traduzido.

Além de ser um ótimo entretenimento, fica de “O Assassinato no Expresso Oriente” a satisfação de constatar, mais uma vez, que uma autora que conta com uma obra que ultrapassa os 80 livros, consegue sim ser muito original.

“Quanto a mim, eu suspeito de todo mundo até o último minuto.” (CHRISTIE, p. 78 – edição britânica) Tradução livre

Em 1974, o livro ganhou uma adaptação cinematográfica considerada a mais bem sucedida adaptação de uma obra de Agatha Christie. No elenco, nomes como Lauren Bacall, Jacqueline Bisset, Sean Connery, Anthony Perkins, Vanessa Redgrave, Ingrid Bergman e Albert Finney (os dois últimos vencedores do Oscar na categoria melhor atriz coadjuvante e melhor ator, respectivamente, por suas atuações no longa). Assisti o filme há alguns anos, mas não tenho condiçõess de comentar sua fidelidade à obra original já que assisti muito após minha primeira leitura e muito antes da segunda.

Na TV, a série "Agatha Christie's Poirot" (que traz o nada menos que perfeito David Suchet no papel do detetive Belga) também apresentou sua versão do livro. E se nunca comentei aqui antes, comento agora: o adjetivo perfeito não é um exagero para Suchet. Não só o ator adota os trajeitos, a maneira afetada falar, de andar, as obsessões de Poirot em cada gesto, como parece ter saído fisicamente da mente da Dama do Crime. Com exceção dos olhos verdes, é incrível que até a cabeça em formato de ovo Suchet tenha. Aliás, fica a dica: “Agatha Christie’s Poirot” é um pouco difícil de encontrar, mas vale a pena conferir (em especial a partir da quarta temporada quando os episódios passam a ser como filmes de 90 minutos de duração, cada um apresentando um livro). Todos os casos de Poirot foram contemplados pela série.

Em 2017, Kenneth Branagh assume a direção e o papel de Hercule Poirot, com direito a um bigode indescritível e a companhia de um elenco de peso que conta com Johnny Depp, Judi Dench, Michele Pfeiffer, Penélope Cruz e Williem Dafoe. O filme chega aos cinemas no final de novembro.

Título: Assassinato no Expresso Oriente
Autora: Agatha Christie
N de páginas: 248
Editora: L&PM

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sexta-feira, 17 de novembro de 2017

RESENHA: Caçando Carneiros

Caçando Carneiros Haruki Murakami
Haruki Murakami é um dos autores japoneses mais aclamados da atualidade, contando com uma legião de fãs ao redor do mundo. E foi com o livro Caçando Carneiros que o autor se tornou conhecido no cenário internacional. 

O sócio de uma empresa de publicidade leva uma vida comum e banal até que utiliza a foto de carneiros em um trabalho. Por causa disso, ele é confrontado por um misterioso homem, que representa um poderoso grupo político, o qual exigirá um serviço diferente: que ele encontre o carneiro da foto. Assim, ele parte em uma jornada pelo Japão, seguindo pistas como se fosse um detetive. 

Em minhas experiências anteriores com as obras do autor, sempre me impressionei com a fluidez do texto. Porém, em Caçando Carneiros senti o oposto: a narrativa conta com um ritmo lento e monótono, de modo que não conseguia ler muitas páginas por vez. Além disso, a estória demora para engrenar, visto que a jornada do protagonista tem início apenas depois da metade do livro. 

Outro problema para meu envolvimento com a estória foi a ausência de uma conexão com o protagonista. Não fui cativado por ele, mas tampouco o odiei. E a meu ver, não existe sentimento pior que a indiferença quando estamos falando sobre o personagem que deve conduzir a estória. Registro também que os demais personagens foram tão insossos quanto o protagonista. 

A obra, de certa forma, aborda temas como amizade, relacionamentos, obsessão e identidade. Entretanto, creio que tais reflexões pareceram um pouco vazias, visto que partiam de personagens com os quais o leitor não se identifica, nem se importa. Ou seja, as reflexões, embora até fossem interessantes, não causam um impacto verdadeiro. 

“— Todo mundo tem uma ou duas coisas que não deseja perder. Isso vale também para você — disse o homem. — E nós somos profissionais em matéria de descobrir as referidas coisas. Em todo ser humano existe um ponto sensível, que se situa entre o desejo e o orgulho, isso é infalível.” (MURAKAMI, 2014, p. 153)

Mas o calcanhar de Aquiles do livro é outro: quanto mais avançava a leitura, mas sentia que não havia estória alguma para ser contada. No fim das contas, trata-se apenas de uma jornada que parece não ter propósito, nem sentido. Algumas resenhas que li afirmavam que o cerne do livro é a jornada de autoconhecimento do protagonista, porém, não vi nenhuma evolução significativa no personagem para que eu pudesse concordar com tal afirmação. 

O final do livro me deixou com um gosto amargo, pois a estória sequer parece ter um desfecho coerente. Assim, encerrada a leitura, fiquei com a impressão de que o Murakami não sabia o real cerne da estória que tinha para contar, de modo que atirou para todo os lados e falhou em acertar um único alvo. 

Do autor já li o conto Sono e o livro Após o Anoitecer, sendo que gostei de ambas as leituras, embora nenhuma delas tenha sido particularmente marcante. Mas depois da experiência catastrófica que tive com Caçando Carneiros, tenho dúvidas se terei coragem para ler outros livros do autor

Título: Caçando Carneiros
Autor: Haruki Murakami
N.º de páginas: 331
Editora: Alfaguara
Exemplar cedido pela editora

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terça-feira, 14 de novembro de 2017

RESENHA: Tormenta de Fogo

Tormenta de Fogo Executores Brandon Sanderson
Coração de Aço foi uma das melhores leituras que fiz em 2016 e, por isso mesmo, Tormenta de Fogo se tornou uma das maiores expectativas literárias para esse ano. E o segundo livro da série Executores provou mais uma vez que Brandon Sanderson é um dos melhores autores de fantasia da atualidade.

ATENÇÃOa sinopse (parágrafo abaixo) CONTÉM SPOILERS do livro anterior. O restante da resenha é spoiler free. 

A obsessão de David virou realidade: o épico Coração de Aço foi derrotado. Mas, e agora? Se sentindo perdido e assombrado por perguntas que não consegue responder, David acompanha Prof para Babilônia Restaurada, antigamente conhecida como Manhattan. Lá ele encontra uma cidade que foi alagada e que é governada pela poderosa Realeza, uma épica que consegue controlar a água de formas inimagináveis. Além disso tudo, David tem seu próprio plano: reencontrar Tormenta de Fogo. 

Se no primeiro livro o que havia se destacado era a originalidade da premissa, desta vez fiquei impressionado com a genialidade do autor. O mundo criado por Sanderson se mostrou ainda mais complexo, e percebemos que as informações que sabíamos em Coração de Aço eram apenas a ponta do iceberg. Assim, fica claro que o autor planejou absolutamente tudo nos mínimos detalhes, o que lhe permitiu explorar a fundo as possibilidades deste universo. 

Outro aspecto que merece destaque é o aprofundamento psicológico dos personagens. David passou anos estudando os épicos, tentando descobrir formas de derrota-los a fim de colocar um ponto final em seus domínios. Mas em Tormenta de Fogo o protagonista percebe que a linha que separa os Executores — grupo destinado a matar épicos tiranos — dos próprios épicos é extremamente tênue.

“Meu estômago se revirou. Atirar na cabeça de alguém enquanto a pessoa dormia? Não parecia muito heroico Mas eu não disse nada, e mais ninguém disse também. No fundo, éramos assassinos, e fim de história.” (SANDERSON, 2017, p. 125)

A narrativa é viciante e extremamente envolvente, apesar de contar com um ritmo mais lento em alguns poucos momentos. Também merece destaque os momentos de humor que permeiam o texto, funcionando como uma válvula de escape para o clima de tensão que cresce ao longo da estória. Apesar da coragem e determinação em deter os épicos, David é uma pessoa completamente sem noção em algumas situações, o que gera momentos hilários e que arrancam gargalhadas do leitor. 

A trama foi perfeitamente amarrada, o que revela o completo domínio do autor sobre a estória. Aliás, chama atenção a habilidade do autor em inserir diversas informações relevantes ao longo do texto, mas que passam batidas. Assim, quando as peças do quebra cabeça começam a ser juntadas, percebemos que as pistas estavam na nossa frente. 

O final é frenético, ganhando doses extras de ação e adrenalina. Preciso registrar que o autor optou por um rumo completamente inesperado, deixando o leitor com o coração na mão nas últimas páginas do livro. E como esperado, os ganchos para o próximo livro são absurdamente promissores. 

Mais uma vez Sanderson entregou um livro com uma trama inteligente, personagens bem construídos e uma estória que prende a atenção do leitor do início ao fim. E depois de mais uma experiência de leitura inesquecível, posso afirmar com convicção que Executores se tornou minha série de fantasia preferida da atualidade. E por isso mesmo, mal posso esperar para conferir Calamidade, o terceiro e último livro da série.

Título: Tormenta de Fogo
Autor: Brandon Sanderson
N.º de páginas: 374
Editora: Aleph
Exemplar cedido pela editora

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segunda-feira, 13 de novembro de 2017

PROMOÇÃO: Tartarugas até lá embaixo


Depois de muitos anos de espera, finalmente, John Green lança um novo livro, dessa vez colocando os seus leitores na pele de Aza, uma adolescente que sofre de TOC. O Além da Contracapa se juntou a Editora Intrínseca para presentear um leitor com exemplar de "Tartarugas até lá embaixo". Confira as regras e participe. 

Regulamento:

A promoção terá início no dia 13 de novembro e término no dia 03 de dezembro 

Para participar, basta preencher o formulário abaixo, usando sua conta do Facebook ou seu e-mail. É obrigatório curtir a página do blog no Facebook e ter um endereço de entrega no Brasil.

As demais entradas são opcionais

Para a entrada "Tweet about the Giveaway" ser válida, é obrigatório seguir o blog e a editora no twitter. 

O resultado será divulgado no blog e nas redes sociais até três dias após o encerramento da promoção, sendo que o sorteado será contatado por e-mail, tendo o prazo de 48 horas para fornecer seus dados e o blog se responsabiliza por confirmar o recebimento das informações. 

Decorrido o prazo sem manifestação do vencedor, novo sorteio será realizado.

O vencedor ganhará um exemplar do livro "Tartarugas até lá embaixo"

O livro será enviado pela Editora Intrínseca. 

A Equipe do Além da Contracapa se reserva ao direito de dirimir questões não previstas neste regulamento.

a Rafflecopter giveaway

sábado, 11 de novembro de 2017

RESENHA: Amor sem fim

Amor sem fim / Ian McEwan
Ian McEwan é um daqueles autores que sempre me provocam interesse. São diversas as sinopses de seus livros que me atraem e diversos também os primeiros capítulos que já experimentei, mas até hoje “Amor sem fim” foi apenas o segundo de seus livros que li.

Após uma viagem, Joe está morrendo de saudades de sua esposa Clarissa. Ele a pega no aeroporto e eles decidem fazer um piquenique, mas o que era para ser um agradável passeio acaba se transformando em tragédia quando um homem cai de um balão e morre. Joe, um dos que tentaram salvá-lo, não foi capaz de fazer nada. Esse era apenas o início do pesadelo. Naquela mesma noite, Joe recebe a ligação de Jed Parry, outro dos homens que tentaram ajudar. A mensagem do estranho diz: “Eu também te amo”. A partir de então, Joe vê sua vida e seu casamento afetados pela perseguição de um homem obsessivo.

“Amor sem fim” é um livro lento, mas envolvente graças à qualidade indiscutível do texto de McEwan. O autor consegue ficar páginas e páginas falando sobre a mesma coisa, sem avançar na história, e ainda assim não entediar seu leitor. Uma narrativa densa que não deve ser lida rapidamente para que não vire um mero emaranhado de palavras.

É claro que a profundidade dos personagens é também fator fundamental para que o livro funcione. Pouco importa se tudo indica que Parry é louco e não há a menor razão para ele se sentir como se sente em relação a Joe. O que importa é o efeito que a perseguição provoca no protagonista. A situação pode ser totalmente absurda, mas isso não significa que suas consequências não serão reais. Além disso, as perguntas “até onde Parry será capaz de ir para conseguir o que quer?” e “o que Joe será capaz de fazer para se livrar dessa situação?” mantém o interesse do leitor do início ao fim.

“Todo começo é artificial, e o que torna um mais recomendável do que outros é o sentido que pode dar à sequência de eventos.” (McEWAN, 2016, p. 27)

Outro aspecto interessante são as possibilidades que se abrem pelo fato de a história ser narrada em primeira pessoa por Joe – raras exceções quando vemos as cartas que Parry envia para ele. O fato de acompanharmos tudo pelo seu ponto de vista levanta uma série de dúvidas: isso está mesmo acontecendo ou é apenas efeito do trauma? Por que Clarissa nunca vê Parry? É realmente porque ele se esconde quando ela aparece ou porque ele não está ali? E por que a caligrafia dele é tão parecida com a de Joe? É com Parry que há algo errado ou com o próprio Joe? Essas foram algumas das perguntas que me fiz durante a leitura.

Mas eu não diria que “Amor sem fim” é sobre uma obsessão e sim sobre a fragilidade das relações humanas. Sobre a fugacidade dos momentos. A história principal aqui é o – até então – feliz casamento de Joe e Clarissa, mas basta que surja um elemento externo a essa história para que ela já não seja a mesma. Parry é quem coloca a trama em movimento, mas a história é muito mais sobre o que ele provoca na relação de Joe e Clarissa do que sobre ele e suas intenções.

Apesar de ter gostado da leitura, devo confessar que “Amor sem fim” se revelou um balde de água fria em suas últimas páginas. Ao longo da narrativa, elaborei várias teorias, apenas para me deparar com uma resolução preguiçosa que pouco soou como uma resolução. Isso não o torna um livro ruim, mas não consegui evitar a sensação de “só isso?” quando o fechei após a última página. Ainda assim, não será isso que encerrará minha relação com Ian McEwan. Há muitos outros livros com os quais o autor poderá se redimir. Tenho certeza que, com algum deles, ele o fará.

Em 2005, o livro ganhou uma adaptação cinematográfica (Amor para sempre) com Daniel Craig no papel principal. 

Título: Amor sem fim
Autor: Ian McEwan
N° de páginas: 291
Editora: Companhia das Letras

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quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Porque todo livro do John Green é o melhor livro do John Green

Quando se trata de John Green, nós somos suspeitos. Desde a primeira leitura, nos apaixonamos pelo estilo do autor. A Culpa das Estrelas foi o primeiro e a ele se seguiram outros tantos, sempre nos proporcionando bons momentos. Tanto que eleger um favorito é tarefa difícil, já que cada um é especial a seu modo. Nesse post, vamos falar um pouquinho sobre porque acreditamos que cada livro do autor tem potencial para ser o seu favorito

É difícil acreditar que este tenha sido o primeiro livro de John. Não apenas porque nele já estão presentes todos os elementos que serão sua marca registrada, mas também pela profundidade escondida atrás de uma história vivida por adolescentes. A começar pela sua protagonista: Alasca. A menina está longe de ser uma personagem cativante e, em muitos momentos, nem mesmo gostamos dela. Na verdade, Alasca é um pesadelo. O tipo de amiga que ninguém gostaria de ter. Uma pessoa realmente difícil de conviver. E é justamente isso que faz dela uma personagem tão fascinante. Alasca é complexa e, mesmo depois da última página, não conseguimos ter certeza do que realmente se passa em sua cabeça. O que realmente importa é o impacto que ela tem na vida de Miles, o menino que nos conduz pela história. O mais tumultuado dos livros de John Green.  
Quando se trata de John Green, algumas coisas são certas. Você vai se deparar com momentos emotivos, com momentos reflexivos e com momentos hilários. Muitas vezes, todos ao mesmo tempo. É um tempero que só o John tem. Mas quando se trata de seu segundo livro, tenha a certeza que o sabor da comédia irá se sobressair. Verdade seja dita, a história de Colin, um gênio da matemática que sofre com o pé na bunda que levou da sua 13 Katherine, é possivelmente a menos marcante das histórias do autor, mas isso não significa que não seja um bom livro. Aqui temos um adolescente que não sabe o que quer da vida, um amigo sem noção que não tem medo de falar verdades, uma roadtrip, uma cidadezinha pequena, uma menina e muitas notas de rodapé sobre matemática e outras coisas. Uma mistura que resulta no mais engraçado dos livros de John Green. 

Cidades de Papel John GreenCidades de Papel

Este poderia ser apenas mais um young adult, com uma premissa já explorada muitas vezes: garoto nerd apaixonado pela vizinha popular. Mas John Green nunca se limita a fazer mais do mesmo e apesar do ponto de partida parecer batido, o autor criou uma estória extremamente profunda e verossímil. Tanto Quentin quanto Margo são ótimos personagens e a jornada deles faz o leitor repensar sobre diversos aspectos da vida e da sociedade. Além deste tom mais filosófico, é claro que o autor conseguiu mesclar momentos mais leves e descontraídos e que certamente arrancam gargalhadas. Apesar da narrativa contar com um ritmo um pouco mais lento,  este é o livro mais reflexivo de John Green

A culpa é das estrelas John GreenA Culpa é das Estrelas

Difícil falar em John Green e não pensar em A Culpa é das Estrela, seu livro mais famoso e que catapultou sua carreira. A estória da jovem Hazel, diagnosticada com câncer terminal, é uma montanha russa de emoções, nos fazendo rir em uma página para chorar logo em seguida. Apesar da temática pesada, em nenhum momento o autor apela para o sentimentalismo, tampouco tenta forçar lições de vida. Além dos personagens cativantes, a leitura é extremamente envolvente e intensa, contando com uma mistura de drama e romance que deixará você com o coração apertado. Não é por menos que consideramos A Culpa é das Estrelas o livro mais emocionante de John Green

Tartarugas até lá em baixo John Green   Tartarugas Até Lá Embaixo

O recém-lançado livro do autor conta a estória de Aza Holmes, uma garota de dezesseis anos que tem transtorno obsessivo-compulsivo. John Green, que também foi diagnosticado com TOC, fala com a experiência de quem vivenciou aquelas situações e assim consegue colocar o leitor na pele da protagonista. Por isso sentimos o mesmo aprisionamento que Aza sente quando sua mente é invadida por pensamentos que não são seus, os quais lhe atormentam de formas inimagináveis. Mostrando uma realidade extremamente difícil e que é desconhecida da maioria das pessoas, este é o livro mais conscientizador de John Green. 


 

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