sábado, 24 de junho de 2017

RESENHA: O Segredo dos Corpos

“De maneira simplificada, meu trabalho como médico-legista consiste em determinar como e por que uma pessoa morreu. Em termos técnicos, temos de encontrar a causa e o modo da morte. A causa é a doença ou lesão que provocou a morte. Pode ser um ataque cardíaco, um ferimento por arma de fogo, AIDS ou um acidente de carro. O modo da morte se refere a uma das quatro formas gerais de um ser humano morrer — causas naturais, acidente, suicídio ou homicídio —, além de uma incômoda e quinta forma: morte indeterminada.” (DI MAIO; FRANSCELL, 2017, p. 36).

***

Durante minha adolescência, li muitos livros e assisti a muitas séries e filmes com temática policial. Adorava, e ainda adoro, um bom mistério, o suspense, a possibilidade descobrir a verdade e juntar as peças de um quebra cabeça. Embora não tenha sido um fator decisivo, estas estórias me motivaram a cursar a faculdade de direito, onde inevitavelmente me apaixonei pelo direito penal. Desde aquela época, meu lado aspirante a escritor deseja escrever um thriller jurídico/policial e O Segredo dos Corpos me pareceu uma excelente forma de fazer um pouco de pesquisa sobre a área pericial. 

O Dr. Vicent Di Maio é um dos maiores especialistas quando se fala em medicina forense e em O Segredo dos Corpos ele conta um pouco de sua estória, bem como os casos nos quais trabalhou ou prestou consultoria, esclarecendo como é feita uma necropsia e mostrando como este trabalho pode trazer à luz informações vitais para que a justiça seja feita. 

Com uma linguagem simples e direta, Di Maio e Franscell revisitam diversos casos, expondo quais foram as circunstâncias do crime e, em seguida, quais foram as descobertas feitas durante a necropsia. Em alguns capítulos, acompanhamos também o julgamento e vemos os desdobramentos legais do crime. 

Mais do que qualquer outra coisa, os autores têm a clara intenção de desmistificar a profissão do médico-legista, que é retratada com glamour pelas lentes de Hollywood. Além disso, com a evolução da tecnologia, grande parte da população tem a impressão de que a medicina forense tem reposta para todos os casos. Mas Di Maio deixa claro que a “as melhores ferramentas de um bom patologista forense são seus olhos, seu cérebro e seu bisturi. Sem eles, toda ciência no universo não basta.” (p. 71).  

Entre os casos visitados pelos autores, dois deles se destacaram. O primeiro foi de Lee Harvey Oswald, o suposto assassino do presidente John Kennedy, cuja estória sempre esteve envolta por muitos mistérios e teorias da conspiração. Outro caso de destaque é a morte do pintor Vincent Van Gogh, que causou grandes discussões entre os defensores da tese de suicídio e aqueles que acreditavam em homicídio. 

A contracapa do livro alerta o leitor que o livro conta com “conteúdo extremamente violento”, porém, admito que os casos narrados não me causaram esta impressão. Sim, o livro revela o que há de pior no ser humano, mostrando atos perversos e cruéis. Entretanto, a narrativa dos autores é bastante objetiva e somos poupados de descrições minuciosas acerca dos crimes hediondos que tais pessoas cometeram ou das condições do corpo durante a necropsia, por exemplo. 

Para quem se interessa por medicina forense, O Segredo dos Corpos é um prato cheio, pois não é apenas uma leitura informativa, mas também viciante para aqueles que gostam de ler sobre os crimes da vida real. Mesmo sem reviravoltas mirabolantes, prepare-se para uma leitura densa e de tirar o fôlego, pois Di Maio e Franscell fazem exatamente o que prometem: explanam a verdade nua e crua do que acontece em um necrotério. 

Título: O Segredo dos Corpos
Autor: Vicent Di Maio e Ron Franscell
N.º de páginas: 281
Editora: DarkSide Books
Exemplar cedido pela editora

Compre: Amazon
Gostou da resenha? Então compre o livro pelo link acima. Assim você ajuda o Além da Contracapa com uma pequena comissão.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Quem vem para o jantar? #29

Ninguém mais ouviu falar neles depois daquilo. Ninguém soube como tudo havia começado. Bom, ninguém a não ser eu. E Tabitha. Mas talvez eu devesse começar pelo começo. Pelo jantar daquela noite. Se eu soubesse o que iria acontecer, nunca teria dado início àquela jornada maluca. Parecia tão emocionante e tão simples ao mesmo tempo. Se ao menos eu soubesse...

Ali estávamos nós. Depois do jantar, apenas rindo e estendendo um pouco mais a conversa. Isaac Asimov, Agatha Christie, Georges Simenon, David Lynch, Thomas Harris, Suzane Collins, Emily Brontë, Pierre Boileau e eu. Tabitha àquela hora já havia se retirado, dizendo que não queria testemunhar a loucura que eu estava prestes a propor aos nossos convidados. Eis que esse infeliz episódio serviu para provar, mais uma vez, que eu devo escutar a minha mulher. Sempre!

Mas em minha defesa, todos pareceram achar a ideia estimulante. Bom, todos menos Simenon. “Com certas coisas não se brinca”, disse ele. “Não existia disso no meu tempo.” Houve também o bizarro comportamento de Lynch, que eu tinha certeza que seria o primeiro a embarcar na aventura, mas que saltou fora alegando estar com muitos compromissos graças ao retorno de Twin Peaks. Aliás, estou devendo a ele a minha opinião sobre os novos episódios, mas quem tem cabeça para assistir séries quando se está vivendo sob a sombra de ter feito o que eu fiz? Voltando ao assunto, foi assim que nosso grupo se formou: Asimov, Agatha, Tom, Pierre, Suzane, Emily e eu.

Mas me desculpe, Leitor Fiel. Eu ainda não lhe contei o que deu início a essa confusão toda. Talvez eu esteja apenas envergonhado. Ou talvez você deva estar, afinal, você pode ter sido um dos que me alfinetaram a buscar isso, então talvez possamos dividir a culpa. O que você acha? Porque tudo começou quando muitos de vocês criticaram o final de “Sob a Redoma”. Tantos foram os argumentos de vocês que até eu mesmo passei a acreditar que era melhor se eu não tivesse explicado as origens da redoma, afinal, vocês tem razão: ninguém se importa com a tal redoma. O que importa são os personagens. São sempre os personagens. Então é por isso que a minha intenção naquela noite era a seguinte: entrar em uma realidade paralela que me permitisse alterar o final da história. Tabitha disse que era perigoso e que não daria certo, mas para mim aquela era uma chance única de fazer algo que poucos fizeram antes. A turma concordou e por isso aceitaram vir junto. Pierre, inclusive, disse que aproveitaria para tentar fazer alterações em “Vertigo – Um Corpo que Cai” porque acabou gostando mais da abordagem de Hitchcock do que daquela que ele e Narcejac propuseram originalmente.

Foi no dia seguinte que partimos. Não darei detalhes sobre a caixa, sua localização ou sobre como tivemos acesso a ela porque não me foi permitido revelar essas informações. Tudo o que posso dizer é que, quando entramos naquele corredor imenso, para onde olhávamos, o que víamos era o nada. Um longo corredor, tão iluminado que ofuscava a visão, cercado de portas e paredes envidraças, porém opacas, de forma que tudo o que tínhamos eram vislumbres incompreensíveis do que estava do outro lado.

Como a coisa toda havia sido minha ideia, eles deixaram que eu escolhesse a porta que cruzaríamos. E eu escolhi. Eu devia ter previsto. Devia saber que aquele era o melhor momento para voltar para casa.

Assim que a porta se fechou atrás de nós, a confusão começou. A primeira a constatar isso foi Agatha, por puro acidente. Sempre agarrada em um livro, a dama do crime estava relendo “O Morro dos Ventos Uivantes” e com espanto perguntou para Emily se havia mais de uma versão da história. Surpresa, a senhorita Brontë deu a resposta óbvia: “Não”.
– Mas então como Catherine e Heathcliff estão se casando? - perguntou Agatha realmente confusa - Eu já li a história antes e não é isso que acontece.
– É claro que não é isso que acontece. Do que você está falando?
– Está aqui, na página 122. Cathy e Heathcliff estão se casando.
– Mas eu não entendo – disse Emily mais para si mesma do que para o grupo.
Atento, Asimov se aproximou de mim, mas ele nem precisou dizer nada para que eu entendesse o que se passava naquela mente que tantas vezes imaginou realidades alternativas. Tudo o que eu queria era alterar o final de “Sob a Redoma”, mas jamais havia me ocorrido que, ao cruzarmos aquela porta, os romances dos que estavam comigo poderiam sofrer mudanças consideráveis.

Espantada, Agatha fez uma leitura dinâmica e logo compartilhou conosco que o destino do casal criado por Emily continuava trágico: Heathcliff morreria de uma queda de cavalo e Cathy se tornaria tão amarga quanto seu amado fora na versão original da história.

Foi Pierre quem sugeriu que fossemos embora e eu concordei. Então voltamos para o corredor e eu escolhi uma nova porta. A nova realidade que se abriu diante de nós não era nada melhor do que a anterior. Nela, Will Graham se tornava aprendiz de Hannibal Lecter e dava continuidade ao seu legado sanguinário quando o doutor estava atrás das grades. Clarice, aliás, nem chegava a ter acesso a Lecter, já que Graham, obsessivo em continuar sendo o preferido de seu mentor, impedia que qualquer mente promissora chegasse perto de Hannibal.

A essas alturas, Leitor Fiel, você já entendeu o cenário de horror que se formou diante de nós? Não importa quantas vezes voltássemos, quais portas eu escolhia, sempre nos deparávamos com as nossas melhores obras totalmente distorcidas. Agatha viu seu lendário Hercule Poirot não embarcar para uma de suas viagens de férias e, consequentemente, ninguém foi assassinado na história, pois todos os leitores sabem que é a presença do pequeno Belga que atrai os crimes. O livro foi um fracasso! Quase arruinou a carreira da grande Dama do Crime. Asimov viu sua fantástica série dos robôs se tornar uma história de horror de quinta categoria em que os robôs escravizavam os humanos e os colocavam uns contra os outros, descartando-os sempre que não serviam ao seu propósito, ou seja, eliminar outros seres humanos a serviço da supremacia dos robôs.
- Isso é terrível – disse Asimov – É contra tudo o que eu quis propor com as 3 Leis Fundamentais da Robótica.

Suzane Collins viu Prim servir como tributo nos Jogos Vorazes, o que deixou Katniss desolada, principalmente depois que a irmã foi morta ainda no segundo desafio dos jogos. Sem uma personagem forte à frente da série, a trilogia foi reduzida a um único livro, sem espaço nem mesmo para desenvolver o triângulo amoroso que Suzane tanto havia preservado até as últimas páginas.

Quando achamos que não haviam mais livros para sofrerem da maldição da realidade paralela, foi a minha vez de vivenciar o horror que meus amigos vinham experimentando. No meu caso, a nova realidade foi buscar minha primeira história e transformou “Carrie” em um dramalhão no qual a mãe era quem descobria ter poderes telecinéticos, matava todos os adolescentes da cidade que ela considerava serem más influências para a sua filha que, por sua vez, acaba sendo injustamente culpada pelos assassinatos que todos acreditavam serem cometidos por ela em vingança ao bulliyng de anos. Da prisão ela escrevia a sua história em um diário e jurava guardar para sempre o segredo da mãe.

Se antes eu já estava apavorado, ver minha Carrie ser reduzida a uma mártir novelesca fez com que eu me arrependesse amargamente de ter dado início àquilo tudo. Mas agora não tinha mais volta. Tudo ficaria bem se eu conseguisse cumprir o meu propósito. Eu mudaria o final, todos voltaríamos para casa e nossas histórias ficariam bem.

Foi por isso que, pela última vez, eu levei todos para o corredor, mas dessa vez o que encontramos não foram as paredes envidraçadas e sim cortinas vermelhas por todos os lados. Um longo corredor vermelho, uma torta de cereja e o número exato de xícaras de café, uma para cada um de nós. Emily, que estava precisando de uma bebida forte, se contentou com o café e correu para a xícara mais próxima. Eu tentei impedi-la, mas ela foi mais rápida do que eu e, quando a alcancei, ela já havia bebido. Parecia apenas um inocente café, mas eu tinha minhas dúvidas. Aquilo só podia ser coisa do David. Estaria ele ali em algum lugar? Teria entrado conosco sem que percebêssemos? Eu sabia que ele não ficaria de fora de uma experiência como essa, mas o que ele estaria tramando?

Enquanto todos discutiam a respeito do que havia levado o nosso corredor a se transformar em um cenário de Twin Peaks, fiz o que acreditava ser o melhor para todos: deixei meus amigos onde estavam, escolhi uma nova porta e a cruzei sozinho. Assim, pelo menos, o meu seria o único trabalho em risco.

Sentei para trabalhar e meu desespero só aumentou. Eu já não sabia para qual história eu deveria reescrever um final! Era como se ela nunca tivesse existido na minha mente. Entrei em uma livraria e perguntei pelo meu próprio livro, mas ele nunca havia sido lançado. E eu não tinha a menor ideia de como escrevê-lo. Tudo que eu tinha era um título. Nada mais.

Decidi que o melhor a fazer era deixar essa ideia absurda de lado, mas quando voltei para o corredor, qual não foi o meu espanto ao ver que nenhum dos meus amigos se encontrava ali, que a torta de cereja estava espatifada no chão e todas as xícaras haviam desaparecido? Apavorado, entrei nas portas mais próximas, mas não consegui encontrá-los. Entrei em todas as livrarias e perguntei se haviam visto algum deles, mas em algumas situações nem mesmo seus nomes eram conhecidos. Eu estava sozinho e sem ideias.

E é assim que continuo agora. De alguma forma consegui voltar para casa. Tabitha está aqui do meu lado, dizendo coisas em sua cabeça que eu sei que ela não irá verbalizar. Não há necessidade. Sei exatamente o que ela quer me dizer. Se ao menos eu a tivesse ouvido quando ela tentou me alertar.

David também está aqui tentando me ajudar a encontrar uma solução. Ele jura que não teve nada a ver com o que aconteceu e eu acredito nele. Mas às vezes, quando o olho com atenção, posso jurar que seu cabelo está ficando mais branco e que sua risada não está soando como sempre. “Onde eles estão?”, ele repete histérico. “Onde eles estão? Onde eles estão? Onde eles estão?”


segunda-feira, 19 de junho de 2017

RESENHA: Foi Apenas um Sonho

“Porque é preciso um pouco de coragem pra enxergar o vazio, mas é preciso muito mais pra enxergar o desespero. E acho que, quando a gente enxerga o desespero, a única opção é mesmo cair fora. Pra quem pode.” (YATES, 2009, p. 178)

Na época em que assisti o filme inspirado em “Foi apenas um sonho”, eu não sabia que havia um livro por trás do roteiro. Quando descobri, fiquei imediatamente interessada, mas protelei a leitura por anos, lendo a prova no site da editora inúmeras vezes, sem nunca ficar cativada a ponto de me convencer a ler, mas também sem me desapontar a ponto de eu desistir. E ainda bem que eu insisti porque existem poucos livros como “Foi apenas um sonho”. Livros humanos, acima de tudo.

Na década de 60, Frank e April Wheeler são um jovem casal suburbano, embora tenham jurado para si mesmos que jamais seriam como seus vizinhos desinteressantes. Porém, dois filhos que chegaram cedo demais tornaram April uma dona de casa infeliz e entediada e um emprego desprezível tornaram Frank um homem preso em uma rotina que detesta. Quando os dias se acumulam, o mais difícil para os dois é chegar feliz ao final da noite.

Há poesia nas palavras de Yates que fazem de sua narrativa em terceira pessoa um texto intenso e delicado ao mesmo tempo (exatamente como a trama), nos conduzindo calmamente pela vida conjugal de casal infeliz e acomodado que vem se obrigando a reconhecer que nada do que eles sonharam para as suas vidas está acontecendo. Eles estão se tornando pessoas que não gostariam de ser e já não sabem como mudar isso.

Os diálogos também merecem destaque. Não são apenas palavras saindo da boca dos personagens e sim uma enxurrada de desprezo, frustração, ódio, mágoa, angústia, desespero e euforia que revelam essa tristeza constante que aos poucos descobrimos que eles sentem.

Esse é um livro que poderia facilmente dar errado, afinal, não há grandes acontecimentos e os protagonistas não são exatamente carismáticos (na verdade, é mais fácil listar defeitos, tanto em April quanto em Frank, do que encontrar qualidades neles), mas funciona justamente porque se alimenta do cotidiano, algo com que qualquer leitor é capaz de se identificar. Nos reconhecemos nos protagonistas, em suas frustrações. Às vezes elas não têm causa. É só cansaço da forma que a vida adquiriu. Não é possível apontar que os personagens tenham cometido um erro aqui, tomado uma decisão ruim ali e que a causa dos seus problemas seja essa ou aquela, pois se trata de um acúmulo de coisas. Não é que algo tenha acontecido. A vida aconteceu. Simples assim. Não há nada de especial em Frank e em April e é isso o que os torna tão especiais como personagens.

Aos poucos, a narrativa intercala o presente com lembranças do passado (que fazem com que o presente pareça ainda mais amargo). A verdade é que os personagens são tão infelizes que não sabemos se vale a pena torcer para que fiquem juntos e encontrem uma maneira de resolver seus problemas, até porque, não se trata de um casal com problemas e sim de duas pessoas problemáticas que compartilham a vida. Nem Frank nem April tiveram a chance de descobrir quem são, o que querem, o que gostam. Apenas deixaram a vida acontecer. E é por isso que nada consegue satisfazê-los, nem mesmo um ao outro.

Nick Horby e Kurt Vonnegut comparam “Foi apenas um sonho” a “O Grande Gatsby” e de fato é possível reconhecer no livro de Yates o retrato de uma geração, assim como podemos observar o mesmo no livro de Fitzgerald (em um, a geração que testemunhou a Primeira Guerra Mundial, no outro, a Segunda). Mas enquanto em “Gatsby” as festas e a opulência tentam disfarçar a melancolia e o vazio daqueles personagens inesquecíveis, em “Foi apenas um sonho” há apenas o vazio e uma total falta de noção de como preenche-lo. Inclusive, não é apenas o casal que merece atenção. Através da secretária de Frank vemos as mulheres dando os primeiros passos rumo à liberdade sexual, através do vizinho secretamente apaixonado por April vemos o quanto o casamento podia aprisionar as pessoas em uma época em que as mulheres ainda pareciam ter a função de servir aos homens.

Tenho um especial apreço por livros que se revelam simples quando analisamos suas tramas, mas que são extremamente intensos durante toda a leitura. Livros que priorizam bons personagens acima de tudo e que se preocupam em entregar um texto que não apenas desenha cenas para o leitor, mas que em alguns momentos o obriga a interromper a leitura apenas para ler novamente um parágrafo e apreciar sua intensidade e beleza. Por tudo isso, fiquei absolutamente encantada com “Foi apenas um sonho”. A única coisa que lamento foi ter assistido o filme antes, pois desde as primeiras páginas eu sabia o desfecho que me aguardava e isso, certamente, diminuiu seu impacto, embora não tenha diminuído em nada o meu envolvimento. Um livro sensível e melancólico que carrega o tipo de história que o leitor nunca esquece.

O tempo que levei para, finalmente, pegar esse livro em mãos, certamente não irei repetir para outros livros de Richard Yates.

Título: Foi apenas um sonho
Autor: Richard Yates
N° de páginas: 312
Editora: Alfaguara
Exemplar cedido pela editora

Compre: Amazon
Gostou da resenha? Então compre o livro pelo link acima. Assim você ajuda o Além da Contracapa com uma pequena comissão.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

RESENHA: Fera

“— Na maior parte do tempo consigo bloquear esse tipo de pensamento. Fico irritada e tal, mas o tanque emocional aguenta até certo ponto, sabe? Às vezes não tenho vontade de conversar. Porque quando converso sempre sinto como se estivesse me defendendo, e já estou cansada de pedir permissão para existir. [...]. Tudo fica ainda pior porque gosto de mim mesma e do meu corpo, então quando alguém vem me falar merda, sinto como se tivesse que recomeçar do zero. Você não faz ideia do que é ter que lidar com pessoas que vêm me pergunta o que eu sou. Tipo, qual é a resposta pra uma pergunta dessas?” (SPANGLER, 2017, p. 275).

***

Dylan é um garoto de quinze anos com quase dois metros de altura e com muitos pelos no corpo, o que lhe rendeu o apelido de Fera. Ele conhece Jamie, uma garota bonita e inteligente, em uma sessão de terapia e aos poucos surge uma conexão entre eles. Mas quando Dylan descobre que Jamie é transgênera, terá que decidir se irá esconder seus sentimentos ou lutar contra seu próprio preconceito. 

A primeira observação que preciso fazer é que apesar da estória ter sido claramente inspirada em A Bela e A Fera, garanto que Fera vai muito além de sua fonte de inspiração, visto que a obra de Brie Spangler não se limitou a dar um toque moderno ao clássico filme da Disney. A verdade é que as estórias podem até partir de um mesmo ponto, mas a partir daí tomam caminhos diferentes. 

A narrativa em primeira pessoa mostra o ponto de vista de Dylan, de modo que o leitor tem um contato muito próximo com o protagonista, entendendo exatamente quais são seus pensamentos e emoções, bem como o que motiva suas atitudes. É preciso registrar que o texto de Spangler é extremamente fluído e envolvente, sendo que no primeiro dia li mais de cem páginas sem nem perceber. 

Dylan e Jamie são personagens multifacetados e bem desenvolvidos, sendo que a evolução deles ao longo da estória é palpável. Ambos são julgados e sofrem preconceito apenas por serem quem são e deste contexto Spangler propõe diversas reflexões. Outro acerto da autora foi mostrar a reação de outros personagens — como a mãe de Dylan e seu melhor amigo — diante do envolvimento de Dylan e Jamie. E assim como no mundo real, Spangler não criou mocinhos e vilões, mas pessoas com qualidades e defeitos. 

Ao contrário da maioria dos livros com personagens LGBT, Fera tem o diferencial de que Jamie já se aceita como é, estando de bem consigo mesma, sendo que sua luta agora é com o mundo exterior, que muitas vezes não a entende, tampouco aceita. Assim, o enfoque do livro está no processo de aceitação de Dylan, que não sabe como reagir a situação, sentindo-se confuso e perdido. 

Evidentemente, o livro traz algumas discussões a respeito de orientação sexual e, principalmente, identidade de gênero. Este foi o primeiro livro que li que apresentava um personagem transgênero e achei que a autora conseguiu expor com maestria as dificuldades com as quais tais pessoas lutam. Creio que para quem é cisgênero — ou seja, aqueles que se identificam com o gênero que lhes foi designado ao nascer — é muito difícil imaginar o quanto as pessoas trans sofrem e justamente por isso é tão fácil julgar e ser preconceituoso. 

Fera conta com bons personagens, narrativa envolvente, uma estória original e, acima de tudo, com profundas reflexões sobre os mais diversos temas. Além de uma excelente leitura, creio que Fera é o tipo de livro necessário para abrir a mente das pessoas e tornar o mundo mais tolerante. 

Título: Fera
Autora: Brie Spangler
N.º de páginas: 384
Editora: Seguinte
Exemplar cedido pela editora

Compre: Amazon
Gostou da resenha? Então compre o livro pelo link acima. Assim você ajuda o Além da Contracapa com uma pequena comissão.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

RESENHA: Resistência

“Eu cochichei para ele, disse que não podia ser assim, ele morrer ali. Se você tiver que morrer, implorei, não morra quando eu estiver olhando, e se tiver de fazer isso quando eu estiver olhando, faça quando eu não estiver sentindo.” (KONAR, 2017, p. 173)

Muito já se escreveu sobre a Segunda Guerra Mundial e os horrores do Holocausto e muito se continuará escrevendo. “Resistência” atraiu o meu interesse por prometer uma história sensível em meio a um cenário tão cruel.

As gêmeas Stasha e Pearl tem 12 anos quando são levadas para Auschwitz para viverem no que é conhecido como “Zoológico”: um lugar onde o terrível Josef Mengele conduz experimentos em gêmeos, anões, albinos, entre outros, para provar a suposta superioridade da raça ariana. Até que uma noite, em meio a um concerto, Pearl desaparece e Stasha passa a dedicar sua vida a encontrar a irmã ou a vingar a sua morte.

Acredito que não seja surpresa o tipo de acontecimentos que podemos encontrar nas páginas de “Resistência”. Ainda assim, é impossível não se sentir tocado pelos horrores aos quais as gêmeas e os outros personagens são submetidos. Por mais que já tenhamos ouvido, lido, assistido e estudado o que se passou nos campos de concentração, nenhum ser humano normal consegue conceber certas coisas que aconteceram lá e que são descritas ao longo do livro, muitas vezes fazendo o leitor sentir na pele aqueles horrores. Parte dessa intensidade vem do fato de que, para compor a trama, a autora se baseou na história real das irmãs Eva e Miriam Mozes, vítimas de Mengele em Auschwitz.

Apesar de explorar esses episódios, “Resistência” não é sobre os horrores dos campos de concentração e sim sobre os laços entre as irmãs, sobre o amor e a ligação que as une. Mesmo tendo personalidades bem diferentes (Stasha é mais sonhadora, enquanto Pearl é mais realista) as duas se completam. Isso, inclusive, se reflete na narrativa. A história é contada sempre em primeira pessoa - tanto pelo ponto de vista de Stasha como pelo de Pearl – e algo que normalmente me incomodaria é que a narrativa das duas é bastante parecida, mas, nesse caso, acredito que isso seja proposital para mostrar o quanto as gêmeas se sentem como sendo uma só, como uma sendo a extensão da outra.

E por falar em narrativa, o que torna “Resistência” um livro especial é justamente a narrativa de Konar. A beleza e a delicadeza do texto são impressionantes, principalmente levando em consideração o conteúdo que está sendo narrado. A autora não alivia, mas ao mesmo tempo presenteia o leitor com parágrafos encantadores, mesmo na crueldade. Não é transformar em belo o horror. Não é ver beleza em meio ao sofrimento. É simplesmente saber manipular as palavras de forma a conseguir empregar sentimentos puros e simples em uma situação extrema e complexa. Com muitas figuras de linguagem, frases simples repletas de significados fortes, “Resistência” é poesia pura em alguns momentos.

Gradativamente, vemos o quanto as meninas são obrigadas a mudar e o quanto a ligação que existe entre elas, mesmo à distância, é o que faz com que tentem preserver a sanidade e a essência.

É difícil eu manter o interesse em um livro quando não consigo me dedicar à leitura, mas “Resistência” conseguiu esse feito mesmo que durante uma semana inteira o máximo que eu conseguisse ler fossem 20 páginas diárias.

“Resistência” me surpreendeu positivamente. Eu esperava uma história intensa, talvez até melodramática em alguns momentos, mas fiquei encantada com o que encontrei. Livro de estreia de Affinity Konar - descrito como “brutalmente belo” pelo Publishers Weekly, que ainda afirma que “a autora faz cada parágrafo valer a pena” – certamente mostra que sua autora é um nome promissor da literatura americana. Intenso, delicado, horrível, belo. Encantador.

Título: Resistência
Autora: Affinity Konar
N° de páginas: 320
Editora: Fábrica 231
Exemplar cedido pela editora

Compre: Amazon
Gostou da resenha? Então compre o livro pelo link acima. Assim você ajuda o Além da Contracapa com uma pequena comissão.

domingo, 11 de junho de 2017

RESENHA: O que o inferno não é

“— O que você está querendo dizer?
— Que os loucos são os que amam. Você sempre pode amar, este é o paraíso. Enquanto não tirarem de você a capacidade de amar, Federico, sempre poderá fazer alguma coisa. O inferno é perder também a liberdade de amar.” (D’AVENIA, 2017, p. 144)

***

Desde que li Branca como o leite, vermelha como o sangue tenho curiosidade de conferir outro livro do autor italiano Alessandro D’Avenia. Assim, quando O que o inferno não é foi lançado, não tive dúvidas de que precisava conferir a obra. 

Federico está de férias e prestes a embarcar em uma viagem para estudar em Londres quando é convidado pelo padre Pino, seu professor de religião, para ajudá-lo com as crianças em um bairro pobre. Federico se assusta com a realidade que encontra e quando conhece Lucia, uma garota de sua idade, se sente desafiado a tentar fazer alguma diferença naquele lugar desolador. 

Logo no segundo capítulo, D’Avenia já surpreende o leitor com uma cena particularmente tocante e de doer o coração, mostrando como a violência cria cicatrizes profundas em nossas almas. E é justamente a partir do desenvolvimento deste contexto de violência e desesperança que o autor consegue provocar diversas reflexões ao longo da estória. 

O texto de D’Avenia é profundo, impactante e poético. Entretanto, creio que o autor abusou de metáforas, pois havia momentos em que a estória parecia ficar em segundo plano apenas para que tal recurso fosse utilizado. Não me entenda mal: as metáforas eram significativas, porém, a utilização excessiva não apenas tornou o ritmo da estória mais vagaroso, mas também deixou certos trechos da leitura monótonos. 

O livro é composto por capítulos alternados entre o ponto de vista de Federico, em primeira pessoa, e dos demais personagens, em terceira pessoa. Embora eu até entenda a opção do autor, creio que tal abordagem resultou em uma estória muito pulverizada. Assim, ao tentar contar um pouco da estória de cada um, D’Avenia não conseguiu ir muito além da superfície. 

Mas o principal problema de O que o inferno não é diz respeito a quantidade de clichês: o amor impossível à la Romeu e Julieta, o código de honra da Máfia, o padre bondoso que tenta ajudar a todos e se posiciona contra os mafiosos, entre outros. Não tenho problemas com o uso moderado de clichês, desde que o autor saiba como explorá-los, mas, infelizmente, este não foi o caso. 

Como romance de formação, o livro entrega o que promete, pois vemos inicialmente Federico perdido e sem saber o que fazer da vida, sendo que acompanhamos seu amadurecimento e a formação de seu caráter no decorrer da estória.

O que o inferno não é conta com reflexões profundas e impactantes, mas deixa a desejar em outros aspectos. Admito que estava com grandes expectativas por causa da minha experiência de leitura com Branca como o leite, vermelha como o sangue e talvez justamente por isso tenha ficado com um gostinho de decepção. 

Título: O que o inferno não é
Autor: Alessandro D’Avenia
N.º de páginas: 382
Editora: Bertrand Brasil
Exemplar cedido pela editora

Compre: Amazon
Gostou da resenha? Então compre o livro pelo link acima. Assim você ajuda o Além da Contracapa com uma pequena comissão.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

RESENHA: Rastros de Sangue

“ - Que estejamos há muito tempo no céu antes que o diabo perceba que a gente já foi embora.” (McDERMID, 2017, p.140)

Há anos, em uma época em que eu devorava quase todas as tramas policiais que surgiam na minha frente, li um livro de Val McDermid e gostei, embora não tenha sido marcante a ponto de eu me tornar fã. Tanto que apenas agora tive minha segunda aventura com a autora.

O psicólogo forense Tony Hill está criando uma nova força tarefa especializada em traçar perfis psicológicos dos criminosos, mas terá um grande desafio pela frente já que muitos policiais não levam a sério o seu trabalho. Em meio aos exercícios de treinamento, uma jovem policial encontra um elemento comum entre desaparecimentos de adolescentes nunca relacionados antes: todas as meninas estiveram próximas a Jacko Vance, um famoso apresentador de televisão, dedicado a causas sociais. Quando essa policial aparece morta, a equipe percebe que a teoria absurda que ela havia elaborado talvez não fosse tão absurda assim. Para resolver o caso, Tony irá contar com a ajuda de Carol, a detetive com quem trabalhou em um caso anterior e de quem tem tentado se manter afastado.  

“Rastros de Sangue” é o segundo livro da série protagonizada pelo psicólogo forense Tony Hill e a detetive Carol Jordan. Há algumas menções ao caso anterior, em especial ao trauma sofrido por Tony, mas nada que interfira nesta trama ou mesmo dê spoilers da que a antecede. Outra coisa que podemos perceber é que paira um romance entre os dois protagonistas.

A trama se constrói em duas linhas de investigação, a principal sendo a formação da equipe especializada em perfis psicológicos, que levará à descoberta do caso das meninas desaparecidas que, por sua vez, levará à caçada de Jacko Vance. A secundária, encabeçada por Carol, é a investigação de uma série de incêndios criminosos. Devo dizer que essa segunda trama me pareceu desnecessária, apenas para justificar que Carol e Tony não estivessem trabalhando juntos no começo.

McDermid adota uma opção arriscada: sabemos desde o primeiro capítulo que Vance é o assassino das meninas (na verdade, estamos na frente da polícia que, até então, nem sabe que tal assassino existe). Dessa forma, a expectativa do leitor não é descobrir respostas e sim ver se a polícia vai conseguir encontrar as respostas que ele mesmo já tem e se conseguirá pegar o criminoso. É um livro que se faz totalmente pela jornada. Ao mesmo tempo em que acompanhamos a polícia, acompanhamos também Vance e, aos poucos, temos vislumbres de seu passado e de sua mente doentia (sempre através da narrativa em terceira pessoa).

Mas, apesar de perverso, Jacko Vance está longe de ser um vilão memorável, assim como Tony e Carol estão ali para conduzir a trama policial, não para serem as estrelas dela. É o tipo de história em que os personagens servem à trama, não o contrário (como acontece com os livros da série Harry Hole, por exemplo), o que não é uma falha, mas faz com que, com base em apenas um livro, o leitor não se sinta cativado pelos personagens, embora simpatize com eles.

“Rastros de Sangue” é um livro correto. Não cria expectativas exageradas, nem reviravoltas de tirar o folego. Não decepciona, mas também não entrega mais do que promete. Conta com personagens construídos na medida que a trama necessita deles, se mantém com um bom ritmo do início ao fim e mantém o interesse do leitor durante a jornada. O desfecho deixa um gostinho agridoce, de certa forma ousado por parte da autora ou talvez até promissor para livros futuros. Não é uma obra extraordinária, mas se você gosta do gênero não tem porque não gostar da leitura.

É uma pena que a edição conte com vários erros de revisão.

O livro, lançado em 1997, originou uma série de TV britânica ("Wire in the Blood") que teve 6 temporadas exibidas entre 2002 e 2008.

Título: Rastros de Sangue
Autora: Val McDermid
N° de páginas: 433
Editora: Bertrand
Exemplar cedido pela editora

Compre: Amazon
Gostou da resenha? Então compre o livro pelo link acima. Assim você ajuda o Além da Contracapa com uma pequena comissão.
 

Além da Contracapa Copyright © 2011 -- Template created by O Pregador -- Powered by Blogger